E
zás... como nasce uma poesia...
Às voltas com meus comichões literários que não me deixam dormir
enquanto não preencho algumas linhas de meu caderno de rascunhos,
veio-me à lembrança uma calorosa e engraçada discussão que tive
com colegas literatos sobre o nascimento da poesia.
Devo confessar que o gênero em pauta não é o meu forte e que as
poucas tentativas que fiz para adentrá-lo foram frustradas, mas como
escritor e professor de literatura achei-me qualificado para o
embate.
Várias teorias foram discutidas: que a poesia vem do coração, que
as emoções devem fluir pela mão do poeta e configurar na folha de
papel; que a poesia vem da mente, que deve organizar as palavras em
uma sequência rítmica e métrica, sendo este o trabalho de um
verdadeiro arquiteto da língua; que a poesia deve retratar a
realidade e servir como forma de manifesto e indignação perante os
descabidos da nossa sociedade; que a poesia deve conter amor e, ao
contrário, ignorar toda a loucura consumista e egoísta de nossa
sociedade; enfim, muito discutíamos e a nenhuma conclusão
chegávamos.
No meio desta discussão toda, lembrei-me de uma história que me
foi contada há algum tempo: a prefeitura de nossa cidade havia
organizado um ciclo de palestras com escritores locais que
percorreriam as escolas públicas da região para levar seu trabalho
e cultura para as comunidades carentes. Durante um desses encontros –
com a presença de uma ilustre e premiada poetisa de fama local,
admirada por colegas da região -, uma criança perguntou: “mas
como nascem as poesias?”
Sem titubear, a escritora respondeu: “É assim...” e tentando
ser o mais didática possível, começou a encenar enquanto explanava
sobre o nascimento da poesia. “Você fica pensando em algo, seu
cérebro começa a te mostrar um monte de imagens, como um céu cheio
de estrelas que vão vindo lá do fundo, que vão vindo, vão vindo,
vão vindo e ... zás! Nasce a poesia. Entendeu?”
Se entendeu nunca soubemos, mas que deve ter se assustado com toda a
gesticulação e movimentação dos braços da autora, isso deve. A
criança até hoje deve achar que poesia é coisa de gente maluca,
emaconhada, e se pensava em ser escritor deve ter desistido. Eu
desistiria. Até hoje não entendo esta história de zás! Seria a
poesia, então, um momento de epifania representado pelo zás? Ou
seria o zás o exato momento em que um ser sobrenatural incorpora no
poeta e este começa a escrever? O zás é o instante em que a droga
bate e os horizontes se ampliam?
Enfim,
o que concluímos desta discussão toda é que poesia é poesia, não
importa como ela nasça ou o que ela retrate e que o zás é a melhor
resposta para quando não sabemos a resposta de algo. Como escrevi
esta crônica? Bem, eu estava pensando e... zás!
Teder Sacoman
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