segunda-feira, 10 de junho de 2013

Cotard

Pela primeira vez nesse blog publico um conto de minha autoria. Esse está participando do Mapa Cultural Paulista 2013/2014... Me digam o que acharam!!!


Cotard
(Teder Sacoman)

Sou apenas um olho. Um olho que tudo vê e ninguém percebe. Sou a citação de um poeta que não lembro o nome, afinal, sou apenas um olho.
Estranho. Acordar e me sentir um fragmento de Brás Cubas, um único olho. Todo o resto já foi devorado pelos vermes de meu cadáver, pelo primeiro e pelo último. Não há mais vermes apenas um olho que tudo vê e nada sente.
Sou insensível como um cadáver, ou parte dele. Este único olho, aberto, vislumbra o mofo do teto, a luz dos faróis dos carros que entra pela janela. É madrugada e há vida lá fora. Aqui dentro, apenas um olho e como tal, farei a única coisa que me é possível fazer: vislumbrar a vida como nunca havia feito em vida. Sou um olho e permito-me olhar o que os outros não veem.
Não é preciso ir longe: debaixo da primeira ponte uma mulher com os cabelos rançosos e as unhas negras cozinha em uma lata de tinta velha e enferrujada, num fogo feito de restos da política de ontem um pouco de água suja para aquecer o estômago daqueles pobres infelizes que vivem a infelicidade que não lhes foi dada, mas imposta por aqueles que agora queimam nos jornais nesse mesmo fogo. Sinto-me tentado a mergulhar naquela água e dar algum sabor àquilo que ela chama de sopa. Mas ainda há muito o que ver; preciso-me inteiro até o final.
Na avenida, os faróis refletem-se nos paetês das travestis. As prostitutas usam menos brilho, não refletem tanto. O resto da chuva ainda está nas poças. O carro apressado faz o brilho dos paetês ficar marrom e o travesti roxo. As putas riem. A navalha corre. O sangue escoa.
Sinto-me perdido no vazio que você deixou. Quem meu corpo deixou. Citações de desconhecidos me vêm à mente que eu não possuo mais. Engraçado lembrar de algo sem ter um cérebro que possa lembrar. Afinal, sou apenas um olho. De íris verde e pupila dilatada, mas, ainda, apenas um olho.
O trânsito não para. As pessoas andam. Os supermercados não fecham. Os fast-foods estão lotados e os corpos dançam em meio à luz neon. Um corpo cai. Hitchcock. Acho que essa é dele. O corpo que cai, fica ali, caído. Pelo menos é um corpo, eu sou só um olho.
Um grupo de rapazes conversam animados em um posto de gasolina. Se corrermos ainda dá tempo de ver o nascer do sol na praia – ouço, com o ouvido que não tenho. Pego carona e em pouco tempo a areia e o mar estão à nossa frente. Falta pouco mais de uma hora até o sol surgir. Roupas na areia. Corpos nus no mar. Tento fechar o olho, mas não tenho pálpebras nem mãos que me escondam. Viro-me e a avenida está vazia.
Desejo voltar no primeiro ônibus. Sentado na rodoviária, espero. Olho paga passagem? Inteira ou meia? Não tenho dinheiro, terei de suplicar carona com a voz que não sai mais pela boca que não há. Subo os degraus e paro no início do corredor à busca de um lugar vazio. Outros olhos me indagam, curiosos de minha natureza. Pensei ser invisível, mas agora percebo que os outros podem me ver. Que cena grotesca: um olho flutuante em meio à escuridão. Um olho verde, de pupilas dilatadas.
Na volta, São Paulo parece-me mais distante que na ida. A euforia faz com que a descida seja rápida e o cansaço perpetua a viagem de retorno.
Meu reino por uma cama! Ou um colírio! Parodio um personagem de Shakespeare: Othelo, Hamlet ou Iago? Acho que Lear! O cérebro me falta nessa hora. Literalmente. Eu, como olho vivo que sou, canso-me. Se tivesse um corpo, ou pelo menos uma cabeça, estaria com enxaqueca.

A pupila volta ao normal. O teto mofado reaparece, assim como reaparecem as minhas pernas, os meus braços, minha cabeça, meu olho. Meu outro olho. Surpreendo-me: não sou mais apenas um olho. Verde. De pupilas dilatadas. De citações de autores imemoráveis. Sou o que resta de mim fora desse olho.

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