Pela primeira vez nesse blog publico um conto de minha autoria. Esse está participando do Mapa Cultural Paulista 2013/2014... Me digam o que acharam!!!
Cotard
(Teder Sacoman)
Sou
apenas um olho. Um olho que tudo vê e ninguém percebe. Sou a
citação de um poeta que não lembro o nome, afinal, sou apenas um
olho.
Estranho.
Acordar e me sentir um fragmento de Brás Cubas, um único olho. Todo
o resto já foi devorado pelos vermes de meu cadáver, pelo primeiro
e pelo último. Não há mais vermes apenas um olho que tudo vê e
nada sente.
Sou
insensível como um cadáver, ou parte dele. Este único olho,
aberto, vislumbra o mofo do teto, a luz dos faróis dos carros que
entra pela janela. É madrugada e há vida lá fora. Aqui dentro,
apenas um olho e como tal, farei a única coisa que me é possível
fazer: vislumbrar a vida como nunca havia feito em vida. Sou um olho
e permito-me olhar o que os outros não veem.
Não
é preciso ir longe: debaixo da primeira ponte uma mulher com os
cabelos rançosos e as unhas negras cozinha em uma lata de tinta
velha e enferrujada, num fogo feito de restos da política de ontem
um pouco de água suja para aquecer o estômago daqueles pobres
infelizes que vivem a infelicidade que não lhes foi dada, mas
imposta por aqueles que agora queimam nos jornais nesse mesmo fogo.
Sinto-me tentado a mergulhar naquela água e dar algum sabor àquilo
que ela chama de sopa. Mas ainda há muito o que ver; preciso-me
inteiro até o final.
Na
avenida, os faróis refletem-se nos paetês das travestis. As
prostitutas usam menos brilho, não refletem tanto. O resto da chuva
ainda está nas poças. O carro apressado faz o brilho dos paetês
ficar marrom e o travesti roxo. As putas riem. A navalha corre. O
sangue escoa.
Sinto-me
perdido no vazio que você deixou. Quem meu corpo deixou. Citações
de desconhecidos me vêm à mente que eu não possuo mais. Engraçado
lembrar de algo sem ter um cérebro que possa lembrar. Afinal, sou
apenas um olho. De íris verde e pupila dilatada, mas, ainda, apenas
um olho.
O
trânsito não para. As pessoas andam. Os supermercados não fecham.
Os fast-foods estão lotados
e os corpos dançam em meio à luz neon. Um corpo cai. Hitchcock.
Acho que essa é dele. O corpo que cai, fica ali, caído. Pelo menos
é um corpo, eu sou só um olho.
Um
grupo de rapazes conversam animados em um posto de gasolina. Se
corrermos ainda dá tempo de ver o nascer do sol na praia – ouço,
com o ouvido que não tenho. Pego carona e em pouco tempo a areia e o
mar estão à nossa frente. Falta pouco mais de uma hora até o sol
surgir. Roupas na areia. Corpos nus no mar. Tento fechar o olho, mas
não tenho pálpebras nem mãos que me escondam. Viro-me e a avenida
está vazia.
Desejo
voltar no primeiro ônibus. Sentado na rodoviária, espero. Olho paga
passagem? Inteira ou meia? Não tenho dinheiro, terei de suplicar
carona com a voz que não sai mais pela boca que não há. Subo os
degraus e paro no início do corredor à busca de um lugar vazio.
Outros olhos me indagam, curiosos de minha natureza. Pensei ser
invisível, mas agora percebo que os outros podem me ver. Que cena
grotesca: um olho flutuante em meio à escuridão. Um olho verde, de
pupilas dilatadas.
Na
volta, São Paulo parece-me mais distante que na ida. A euforia faz
com que a descida seja rápida e o cansaço perpetua a viagem de
retorno.
Meu
reino por uma cama! Ou um colírio! Parodio um personagem de
Shakespeare: Othelo, Hamlet ou Iago? Acho que Lear! O cérebro me
falta nessa hora. Literalmente. Eu, como olho vivo que sou, canso-me.
Se tivesse um corpo, ou pelo menos uma cabeça, estaria com
enxaqueca.
A
pupila volta ao normal. O teto mofado reaparece, assim como
reaparecem as minhas pernas, os meus braços, minha cabeça, meu
olho. Meu outro olho. Surpreendo-me: não sou mais apenas um olho.
Verde. De pupilas dilatadas. De citações de autores imemoráveis.
Sou o que resta de mim fora desse olho.

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