sexta-feira, 14 de junho de 2013

Aquela dos 30...

Começo este post sabendo que serei linchado virtualmente por alguns, criticado e xingado por outros, mas tudo bem, recém entrado no meu inferno astral (faço aniversário no próximo dia 10), vivenciando a crise dos homens de 30 e vendo o tempo passar com uma velocidade estrondosa, pego-me pensando nessa frase que ouvi em uma música da cantora Sandy - carreira solo - "sou jovem pra ser velha e velha pra ser jovem".
Nenhuma frase havia sintetizado tanto essa sensação de estar envelhecendo e se achar jovem ainda com essa. Olhar para o espelho e ver que a barriga cresceu e o cabelo está mais branco que preto pode causar um colapso emocional em alguém que nunca pensou que esse momento chegaria.
A academia não produz resultados tão eficazes quanto antes, cruzar a piscina a nado demora mais e, às vezes, é preciso um descanso no meio do caminho. Ir à festa de aniversário da sobrinha que você viu nascer e perceber que ela já fez 9 anos, que os seus primeiros alunos já se formaram na faculdade e que colegas de  colégio estão casados e com filhos e você ainda se achando adolescente, jovem, faz com que a autoestima vá lá para baixo.
Semana passada colocaram no facebook uma foto minha tirada na formatura de oitava série. Ano: 1995. Não havia máquinas digitais nem celulares que tiravam fotos. Aliás, ainda pagávamos para ter uma linha telefônica em casa. Consórcio. Enfim, quanta mudança. Estou mais maduro, mais inteligente, mais responsável, mas a ficha de que os 30 chegaram ainda não caiu. Na minha época, telefone era à ficha. Tínhamos aula de datilografia. Pornografia, só nas revistas de banca que roubávamos e escondíamos das mães.
Depressivo? Não. Saudosista. Gostava daquela época em que ficávamos na rua jogando pelada até de noite e não tinha carro para atrapalhar, nem ladrão para nos roubar; de ir para a casa da tia avó Yolanda - carinhosamente, tia Landa - e chupar manga com sal em cima do pé, guerra de bolinhas de barro, banho de mangueira...
Hoje, guardo alguns LPs daquela época (algumas pessoas nem sabem o que é LP), fotos e recordações. Os 30 já chegaram, os 31 estão passando e em menos de um mês, chegarão os 32. O que fazer? "Viver, e não ter a vergonha de ser feliz". Mesmo que a felicidade dependa de um vidro de Grecin 2000.

Até mais, deixo a foto dos meus 14 anos, na formatura da 8ª série e o clipe da Sandy. Sei que muitos vão se identificar.



Fui,

Teder Sacoman

segunda-feira, 10 de junho de 2013

Cotard

Pela primeira vez nesse blog publico um conto de minha autoria. Esse está participando do Mapa Cultural Paulista 2013/2014... Me digam o que acharam!!!


Cotard
(Teder Sacoman)

Sou apenas um olho. Um olho que tudo vê e ninguém percebe. Sou a citação de um poeta que não lembro o nome, afinal, sou apenas um olho.
Estranho. Acordar e me sentir um fragmento de Brás Cubas, um único olho. Todo o resto já foi devorado pelos vermes de meu cadáver, pelo primeiro e pelo último. Não há mais vermes apenas um olho que tudo vê e nada sente.
Sou insensível como um cadáver, ou parte dele. Este único olho, aberto, vislumbra o mofo do teto, a luz dos faróis dos carros que entra pela janela. É madrugada e há vida lá fora. Aqui dentro, apenas um olho e como tal, farei a única coisa que me é possível fazer: vislumbrar a vida como nunca havia feito em vida. Sou um olho e permito-me olhar o que os outros não veem.
Não é preciso ir longe: debaixo da primeira ponte uma mulher com os cabelos rançosos e as unhas negras cozinha em uma lata de tinta velha e enferrujada, num fogo feito de restos da política de ontem um pouco de água suja para aquecer o estômago daqueles pobres infelizes que vivem a infelicidade que não lhes foi dada, mas imposta por aqueles que agora queimam nos jornais nesse mesmo fogo. Sinto-me tentado a mergulhar naquela água e dar algum sabor àquilo que ela chama de sopa. Mas ainda há muito o que ver; preciso-me inteiro até o final.
Na avenida, os faróis refletem-se nos paetês das travestis. As prostitutas usam menos brilho, não refletem tanto. O resto da chuva ainda está nas poças. O carro apressado faz o brilho dos paetês ficar marrom e o travesti roxo. As putas riem. A navalha corre. O sangue escoa.
Sinto-me perdido no vazio que você deixou. Quem meu corpo deixou. Citações de desconhecidos me vêm à mente que eu não possuo mais. Engraçado lembrar de algo sem ter um cérebro que possa lembrar. Afinal, sou apenas um olho. De íris verde e pupila dilatada, mas, ainda, apenas um olho.
O trânsito não para. As pessoas andam. Os supermercados não fecham. Os fast-foods estão lotados e os corpos dançam em meio à luz neon. Um corpo cai. Hitchcock. Acho que essa é dele. O corpo que cai, fica ali, caído. Pelo menos é um corpo, eu sou só um olho.
Um grupo de rapazes conversam animados em um posto de gasolina. Se corrermos ainda dá tempo de ver o nascer do sol na praia – ouço, com o ouvido que não tenho. Pego carona e em pouco tempo a areia e o mar estão à nossa frente. Falta pouco mais de uma hora até o sol surgir. Roupas na areia. Corpos nus no mar. Tento fechar o olho, mas não tenho pálpebras nem mãos que me escondam. Viro-me e a avenida está vazia.
Desejo voltar no primeiro ônibus. Sentado na rodoviária, espero. Olho paga passagem? Inteira ou meia? Não tenho dinheiro, terei de suplicar carona com a voz que não sai mais pela boca que não há. Subo os degraus e paro no início do corredor à busca de um lugar vazio. Outros olhos me indagam, curiosos de minha natureza. Pensei ser invisível, mas agora percebo que os outros podem me ver. Que cena grotesca: um olho flutuante em meio à escuridão. Um olho verde, de pupilas dilatadas.
Na volta, São Paulo parece-me mais distante que na ida. A euforia faz com que a descida seja rápida e o cansaço perpetua a viagem de retorno.
Meu reino por uma cama! Ou um colírio! Parodio um personagem de Shakespeare: Othelo, Hamlet ou Iago? Acho que Lear! O cérebro me falta nessa hora. Literalmente. Eu, como olho vivo que sou, canso-me. Se tivesse um corpo, ou pelo menos uma cabeça, estaria com enxaqueca.

A pupila volta ao normal. O teto mofado reaparece, assim como reaparecem as minhas pernas, os meus braços, minha cabeça, meu olho. Meu outro olho. Surpreendo-me: não sou mais apenas um olho. Verde. De pupilas dilatadas. De citações de autores imemoráveis. Sou o que resta de mim fora desse olho.

quarta-feira, 5 de junho de 2013

Mapa Cultural Paulista 2013

Hoje, como eu havia dito, falarei um pouco sobre o Mapa Cultural Paulista que é um concurso para revelar novos talentos das artes em São Paulo.
Na minha área, literatura, são três as categorias em que se pode concorrer: poesia, conto e crônica. Em uma das edições fui vencedor da fase municipal na categoria Conto e ganhei menção honrosa na fase regional Grande SP. Para a edição desse ano as inscrições estão abertas até o dia 12 de junho. É importante participar desse concurso não apenas pelo prêmio de R$ 2.000,00 caso seja vencedor da fase estadual, mas por causa da possibilidade de ter seu texto analisado por especialistas e saber se você está escrevendo bem ou não, o que precisa melhorar e, de repente, ter seu texto publicado. A primeira vez que vi um texto meu em um livro fui tomado por uma emoção tamanha que acho que só um filho ao nascer pode proporcionar.
Quem quiser participar, pode mandar um e-mail para tsacoman@hotmail.com que eu mando as fichas de inscrição e informações ou ir até a Biblioteca Municipal de Osasco e procurar pela Sabrina ou Marili.


terça-feira, 4 de junho de 2013

"É preciso encontrar a paz..."

Sei que falei para alguns que o assunto do post de hoje seria outro, mas os acontecimentos fizeram com que eu mudasse, então, o de hoje vai ficar para amanhã e o que não existia fica para hoje.
Posso dizer que hoje foi um dia daqueles que não precisavam ter amanhecido. Um dia daqueles em que um dia parece ser uma semana. Enfim, explicando o que aconteceu:
Saí cedo de casa para trabalhar como sempre (ou quase sempre) e resolvi abastecer o carro antes. Até aí tudo bem. O problema foi na hora de pagar: eu não encontrava a minha carteira. Lembrei, então, que a havia deixado no armário da escola junto com o meu celular. Ofereci até o meu notebook e a moça do posto não queria me devolver a chave. Precisei ligar de um orelhão para que fossem me resgatar. Quase duas horas depois, vários olhares desconfiados para mim e trinta reais emprestados, segui para a escola. Eu já havia desistido, mas algo disse para eu ir e fui. Qual não foi a minha surpresa ao ligar o rádio e ouvir Gilberto Gil cantando esse verso: "É preciso encontrar a paz..." e a paz encontrei muitas vezes na escola. Mas não foi o que encontrei hoje, mas é o que pretendo encontrar daqui para frente. Broncas e conversas me fizeram ver que tenho que lutar pela continuidade da qualidade de ensino e buscar uma solução - ou pelo menos uma tentativa - para que as pessoas (professores e alunos) percebam isso e se envolvam nisso. Posso ser sonhador? Sempre fui e serei. Hoje falei pouco, vou terminar meu dia bem (a pizza está chegando) e o Gil vai cantar para vocês...


segunda-feira, 3 de junho de 2013

Eu leio sim... e vou vivendo...

Começo esse post com uma paródia de uma famosa música de Elizeth Cardoso e tudo isso porque em um desses meus cursos de formação contínua para professores foi levantada a questão? De quem é a responsabilidade pela prática de leitura e escrita do aluno?
Muitos falaram que esse hábito deve ser responsabilidade dos pais. Eu acredito que os pais e a família em geral são peças fundamentais para a manutenção desse hábito. Quando os pais leem ou os irmãos ou algum parente próximo mantém essa atividade, a criança cresce sabendo que aquilo faz bem, que ler pode trazer muitas ideias novas, muitos conhecimentos novos. Mas acredito também que é papel do professor fomentar no aluno esse prazer pela leitura. No meu primeiro post escrevi sobre tipos de leitura e agora digo que o professor deve incentivar o aluno a ler e a escrever mesmo que o produto não seja o que mais lhe agrada.
Vou exemplificar com algo que aconteceu comigo e que eu usei de exemplo no curso: tenho uma aluna muito querida, a Maria Amada e que um dia veio me contar uma história sobre um vizinho dele que é um bebê muito fofo e que ela gosta de brincar com ele e me contou também a respeito de uma amiga que ela gosta muito. Propus que ela escrevesse a história. Li o primeiro texto produzido e pedi que ela tentasse detalhar mais as brincadeiras e como eram as crianças. E o resultado? Olhem as fotos. Fiquei lisonjeado de receber esse pequeno presente, porém muito valioso e hoje, ao ser perguntada se alguma vez ela já tinha escrito sobre sua vida, ela disse que sim e que foi incentivada por mim. Fiquei muito feliz. Ela será uma grande escritora? Espero que ela seja o que ela desejar, só espero que essa chama que se acendeu, nunca se apague. E é isso que faz valer a pena.

 



E para quem não conhece a música sobre a qual falei no começo, segue o vídeo:


Até mais e por hoje é só


Teder Sacoman

domingo, 2 de junho de 2013

"Mas a vida, a vida, a vida, a vida só é possível reinventada..."

O post de hoje é sobre uma frase, destas postadas no facebook constantemente e que é título deste texto. Nunca fui fã de poesia, menos ainda de Cecília Meireles. Chega a ser estranho, alguém que dá aulas de literatura falar que não gosta de poesia, mas eu não gosto. Nunca consegui decorar uma sequer, nunca consegui escrever uma poesia com o mínimo de qualidade, mas, enfim, essa frase, dessa poetisa fantástica que é a Cecília, me fez pensar e modificar meus gostos.

"Mas a vida, a vida, a vida, a vida só é possível reinventada." Li e pensei em quantas vezes já reinventei a minha vida. Li e pensei o quanto isso é verdadeiro, o quanto isso faz sentido e o quanto isso nos amedronta. Vou contar uma pequena história: aos 13 anos eu acreditava que seria padre, pensei seriamente nisso, mas desisti pouco tempo depois porque padre não namora, não casa e isso para mim é inconcebível; depois arrumei uma namorada, com quem fui morar aos 18 anos em Belo Horizonte e que me fez prestar o vestibular para publicidade - eu entrei, ela não. Comecei o curso aqui em São Paulo e depois nos mudamos para BH. Mas, durante o curso, eu conheci outra pessoa, que viria, mais tarde, ser outra namorada. O casamento não deu certo e voltei, e recomecei. Arranjei emprego em uma metalúrgica e aos vinte e um anos decidi que queria ser ator. Nova namorada - a da faculdade -, novo curso - o de artes cênicas -, e novo emprego - a metalúrgica. É claro que não ia durar, afinal, ator troca de namorada como troca de roupa. Fim de namoro, continuidade do teatro. Dois anos em cartaz me fizeram perceber que mal iria conseguir me sustentar com o teatro. Nova faculdade: letras. Novos namoros e relacionamentos: uma constante em minha vida (pareço um pouco promíscuo, mas sinto uma necessidade enorme de estar com alguém, sempre). Ao terminar a faculdade, novo emprego: professor - e nesse parece que me encontrei. Gosto muito de dar aulas, compartilhar conhecimento com os alunos - ensinar e aprender.
De uns tempos para cá, vi que eu posso ser muito mais útil fora do que dentro da sala de aula e por isso estou terminando o curso de gestão escolar: quero ser diretor ou coordenador. Quero pensar no fazer pedagógico e modificar o que se faz - e como se faz besteiras em uma escola.
Constantemente, ouço meus alunos sobre a dificuldade de decisão sobre a carreira a seguir. O que dizer para eles? Pense em algo que vocês gostem, mas que te deem retorno financeiro, afinal, não adianta gostar e passar fome, nem ter dinheiro e ser frustrado. O que fica disso tudo depois de três faculdades, duas pós-graduações, sei lá quantos namoros, é que a vida, a vida de verdade, a vida verdadeira, aquela vida que faz sentido só é possível reinventada. Não tenho medo de errar e só se arrependa de não tentar. E salve, Cecília Meireles.

Até o próximo,

reinventando sempre

Teder Sacoman

PS.: Agradeço as mais de cem visualizações que o primeiro post teve. Valeu!

sábado, 1 de junho de 2013

Preconceito literário, existe?

Esse post é inspirado em uma conversa com alunas do 1º ano. Estávamos falando sobre literatura e eu vi sobre sua mesa um exemplar de "Percy Jackson e o ladrão de raios" e comentei sobre o livro. A cara de espanto dela me surpreendeu. Pergunta: só por que sou professor, devo ler apenas os clássicos?
Essa é uma hipótese no mínimo discriminatória e sustentada por muitos. Penso cá, comigo: depois do preconceito racial, religioso, sexual, viveremos uma onda de preconceito literário? As pessoas serão julgadas pelo que leem? Refletindo um pouco mais, percebi que isso existe e não é de hoje; nós, professores de português e literatura somos grandes disseminadores desse preconceito. Ao vermos um aluno lendo, por exemplo, "Harry Potter", "Percy Jackson", "Diário de um banana", costumamos criticá-lo dizendo que esse tipo de leitura não acrescenta nada. Pergunta: como posso criticar algo que eu não conheço, que eu nunca li?
Acredito que a leitura deva ser direcionada; toda leitura deve ter um objetivo: leio Machado de Assis porque é exigido pelo vestibular e eu preciso entrar em uma faculdade, ótimo, objetivo definido; leio "Crepúsculo", porque quero viver, pelo menos na imaginação, um grande amor que enfrentará dificuldades para se concretizar, ótimo também; leio "Diário de um banana" porque me identifico com as trapalhadas de Greg e Rowley, porque na infância/adolescência eu era assim também: esquisito e queria ser aceito por todos.
Nos nossos dias, devemos incentivar a leitura e nada mais eficaz do que começar lendo livros que nos atraiam, histórias que se relacionem com a nossa e faça sentido em nossa mente, preparando, assim, terreno para a leitura de outros textos.
Só para exemplificar: queremos que nosso aluno se interesse por Dom Casmurro e pela sua grande questão: Capitu traiu ou não Bentinho? Capitu estava dividida entre os amores de Bentinho e de Escobar? Se pensarmos é a mesma questão de Crepúsculo: Bella estava dividida entre Edward e Jacob? Enfim, se pudermos relacionar os livros que nossos alunos leem com as histórias que queremos que eles leiam e mostrarmos que os clássicos são tão fascinantes quanto os contemporâneos, conseguiremos atingir nosso objetivo.
Portanto, antes de criticarmos e nos acharmos donos universais do conhecimento literário, vamos aprender com nossos alunos, vamos vivenciar sua realidade para modificarmos a nossa em sala de aula. Acabaremos com os resumos da internet? Não, mas pelo menos conseguiremos despertar o gosto pela leitura de clássicos e fazer com que isso tenha sentido para nossos alunos. Pergunta: Isso significa que não gosto "da boa literatura"?
De forma alguma, leio frequentemente Machado, Eça, Cervantes, Dostoiévski, Clarice, etc. Para terminar, alguns livros "ruins" que eu adoro:

1º Dan Brown - já li todos: O código da Vinci, Anjos e Demônios, Fortaleza Digital,  O símbolo perdido, Ponto de Impacto e estou com Inferno para ler.
2º Diário de um banana
3º Percy Jackson e Os olimpianos
4º O caçador de pipas
5º A menina que roubava livros


Por hoje é só,

Abraços livres de preconceito literário

Teder Sacoman